Rubem Alves

Reflex√£o      Laborat√≥rio de Talentos • 20 Junho 2015

‚ÄúAmar √© ter um p√°ssaro pousado no dedo. Quem tem um p√°ssaro pousado no dedo sabe que,  a qualquer momento, ele pode voar‚ÄĚ

"Mas na profissão, além de amar tem de saber. E o saber leva tempo pra crescer."

‚ÄúA sua presun√ß√£o e o seu medo s√£o a dura casca do milho que n√£o estoura. O destino delas √© triste. V√£o ficar duras a vida inteira.‚ÄĚ

Rubem Alves (1933-2014) foi teólogo, educador, tradutor e escritor brasileiro. Autor de livros de filosofia, teologia, psicologia e de histórias infantis.

A pipoca

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me até atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas.

Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de "culinária literária". Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nobis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro po√©tico-filos√≥fico a uma medita√ß√£o sobre o filme A Festa de Babette que √© uma celebra√ß√£o da comida como ritual de feiti√ßaria. Sabedor das minhas limita√ß√Ķes e compet√™ncias, nunca escrevi como chef. Escrevi como fil√≥sofo, poeta, psicanalista e te√≥logo ‚ÄĒ porque a culin√°ria estimula todas essas fun√ß√Ķes do pensamento.

As comidas, para mim, são entidades oníricas.

Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu.

A pipoca, milho mirrado, gr√£os redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimens√Ķes metaf√≠sicas ou psicanal√≠ticas. Entretanto, dias atr√°s, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas ideias come√ßaram a estourar como pipoca. Percebi, ent√£o, a rela√ß√£o metaf√≥rica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevis√≠vel.

A pipoca se revelou a mim, ent√£o, como um extraordin√°rio objeto po√©tico. Po√©tico porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se p√īs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca. A pipoca tem sentido religioso? Pois tem.

Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas.

Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...

A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido.

Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos gra√ļdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato √© que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca n√£o podem competir com os milhos normais. N√£o sei como isso aconteceu, mas o fato √© que houve algu√©m que teve a ideia de debulhar as espigas e coloc√°-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os gr√£os amolecessem e pudessem ser comidos.

Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado.

Repentinamente os gr√£os come√ßaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordin√°rio era o que acontecia com eles: os gr√£os duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que at√© as crian√ßas podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, ent√£o, de uma simples opera√ß√£o culin√°ria, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crian√ßas. √Č muito divertido ver o estouro das pipocas!

E o que √© que isso tem a ver com o Candombl√©? √Č que a transforma√ß√£o do milho duro em pipoca macia √© s√≠mbolo da grande transforma√ß√£o porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca n√£o √© o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos n√≥s: duros, quebra-dentes, impr√≥prios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa ‚ÄĒ voltar a ser crian√ßas! Mas a transforma√ß√£o s√≥ acontece pelo poder do fogo.

Milho de pipoca que n√£o passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.

Assim acontece com a gente. As grandes transforma√ß√Ķes acontecem quando passamos pelo fogo. Quem n√£o passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. S√£o pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. S√≥ que elas n√£o percebem. Acham que o seu jeito de ser √© o melhor jeito de ser.

Mas, de repente, vem o fogo. O fogo √© quando a vida nos lan√ßa numa situa√ß√£o que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. P√Ęnico, medo, ansiedade, depress√£o ‚ÄĒ sofrimentos cujas causas ignoramos. H√° sempre o recurso aos rem√©dios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transforma√ß√£o.

Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, l√° dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela n√£o pode imaginar destino diferente. N√£o pode imaginar a transforma√ß√£o que est√° sendo preparada. A pipoca n√£o imagina aquilo de que ela √© capaz. A√≠, sem aviso pr√©vio, pelo poder do fogo, a grande transforma√ß√£o acontece: PUF!! ‚ÄĒ e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. √Č a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.

Na simbologia crist√£ o milagre do milho de pipoca est√° representado pela morte e ressurrei√ß√£o de Cristo: a ressurrei√ß√£o √© o estouro do milho de pipoca. √Č preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro.

"Morre e transforma-te!" ‚ÄĒ dizia Goethe.

Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar.

Meu amigo William, extraordin√°rio professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explica√ß√£o cient√≠fica para os piru√°s. Mas, no mundo da poesia, as explica√ß√Ķes cient√≠ficas n√£o valem.

Por exemplo: em Minas "piruá" é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: "Fiquei piruá!" Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.

Piru√°s s√£o aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que n√£o pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.

Ignoram o dito de Jesus: "Quem preservar a sua vida perdê-la-á". A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.

Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...

"Nunca imaginei que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu".


O texto acima foi extraído do jornal "Correio Popular", de Campinas (SP), onde o escritor mantinha coluna bissemanal.